Projeto leva conhecimento agroecológico a jovens de centro socioeducativo do Estado

 ‘Sanitaristas Mirins’, do IMA, completa dez anos e pela primeira vez chega a uma instituição urbana, cujos internos possuem relação com o meio rural

O mundo dos menores abrigados em instituições socioeducativas — após a prática de atos infracionais — pode ser menos sofrido, mais produtivo e capaz de ajudar na ressocialização. A privação de liberdade como medida socioeducativa está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas existem instituições mineiras que se esforçam para preparar o menor com atividades complementares ao ensino regular oferecido.

É o que acontece no Centro Socioeducativo Governador Valadares, onde os jovens têm a oportunidade de conhecer o fascinante mundo da produção agrícola e a importância do manejo e conservação dos alimentos ao aprender ofícios ligados a estas atividades.

O centro, que fica em Governador Valadares (Território Vale do Rio Doce), implantou em maio – por meio da Escola Estadual São Francisco de Assis – o projeto “Sanitaristas Mirins”, criado pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), vinculado à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).

A casa abriga 110 adolescentes, cuja faixa etária média é de 14 a 17 anos, entretanto, contempla também jovens com idade mínima de 12 anos completos e idade máxima de 21 anos incompletos. Todos são inseridos no projeto Sanitaristas Mirins, que integra as ações de educação sanitária desenvolvidas pelo IMA para estudantes de diversas regiões do estado.

A eles são transmitidos conhecimentos sobre temas da realidade rural, como sanidade animal (vacinação de animais, manejo correto, prevenção de doenças) e sanidade vegetal (uso correto de defensivos agrícolas e outros aspectos, entre eles o ambiental). Os técnicos do Instituto treinaram os professores locais da área de ciências. 

Identificação e esperança

Segundo o diretor do Centro Socioeducativo Governador Valadares, John William Lemes Godinho, muitos jovens são de origem rural e têm interesse em agropecuária e meio ambiente, entretanto, haviam perdido o vínculo com a escola antes de serem internados.

“Com essa parceria, estamos conseguindo resgatar os valores da escola, promovendo nos estudantes a conscientização ambiental e a necessidade de preservação da vida em todos os sentidos”, explica Godinho.

Outro ponto do projeto considerado essencial por John William é o envolvimento das famílias dos adolescentes que participam de palestras e o receberam livros didáticos. Houve também doação – numa parceria com Instituto Estadual de Florestas (IEF) – de mudas frutíferas a esses familiares como forma de integrá-los ao projeto e a uma nova vida.

Há a previsão de começar, em breve, o plantio de uma horta na instituição para que os próprios jovens possam cultivar alimentos com ajuda de professores e dos técnicos do IMA, que mostram na prática como se dá a relação com o campo e o meio ambiente.

“Em muitos casos, quando o adolescente chega aqui não tem esperanças e o vínculo familiar é difícil. Esse projeto é fundamental para restabelecer o vínculo com a escola e com a família”, explica o diretor da casa, esperando que o projeto proporcione uma nova perspectiva para quando o adolescente sair do centro socioeducativo e voltar à vida em liberdade. 

Origem rural

Para o coordenador regional do IMA, Carlos Fernando de Souza, que é agrônomo e mestre em Meio Ambiente, o projeto Sanitaristas Mirins é uma rotina nas escolas rurais da região do Vale do Rio Doce. “Considerando ressocialização e reinserção na sociedade, muitos adolescentes têm perfil rural, por isso resolvemos levar essa atividade para dentro do Centro Socioeducativo Governador Valadares”, afirma.   

Souza ressalta que o objetivo é contribuir com conhecimentos que facilitem a ressocialização. Como objetivo específico, busca-se a ocupação com algo que quebre a rotina dos menores no ambiente em que estão e que, ao mesmo tempo, traga a memória de volta, pois muitos conhecem a realidade rural.

“A maioria é ligada de alguma forma a cidades muito pequenas da região, com uma economia dependente da agropecuária. E mesmo os que não têm essa vivência rural despertam interesse pelos temas”, observa Souza.

Como coordenadora informal do projeto na Escola Estadual São Francisco de Assis, a ex-estagiária do IMA e graduanda em engenharia ambiental, Claudinéia Alves Feitosa, chama a atenção pela disposição em ensinar. Ela diz que o trabalho com jovens em um centro socioeducativo traz mais satisfação.  

“É um desafio, mas trabalhar com desafio é muito melhor, é uma experiência para a vida toda, porque acredito nos alunos e na ressocialização”, relata Claudinéia.

Adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no Centro Governador Valadares se mostram entusiasmados com a oportunidade. L.L.F.M, de 16 anos, conta que está feliz com o livro e com o aprendizado prático que vem recebendo em palestras dos técnicos do IMA e da professora Claudinéia.

“Estou bastante animado. Fico sabendo de tudo da natureza, a importância da saúde dos animais, como vivem os morcegos e como ocorrem os vulcões”, diz o interno. 

M.G.P.A, também de 16 anos de idade, gosta da ideia de ter a sua família participando do projeto, recebendo livro, mudas e sementes de árvores frutíferas.

“Não vejo a hora de começar o trabalho na horta, pois vai nos ajudar muito com alimentos saudáveis e com uma experiência para a vida inteira também. Vai ser benefício para todos nós”, afirma.  

A trajetória de um projeto vitorioso

Há dez anos, com o idealismo de quem começava a carreira profissional no IMA, a veterinária Ana Cristina Paiva queria realizar algo transformador. Até que surgiu a ideia de levar informação às crianças do campo para que elas crescessem e pudessem influenciar os seus pais e demais adultos a sua volta.

Dessa forma, Paiva escreveu e lançou o livro “A educação sanitária no dia a dia dos alunos – descobrindo a agropecuária na escola”.  A iniciativa recebeu o apoio dos professores das redes públicas e também dos colegas de trabalho de todo o estado.

Ela lembra que o objetivo era mostrar às crianças, numa linguagem lúdica, a importância do trabalho do Instituto Mineiro de Agropecuária na prevenção das doenças dos animais, que são transmitidas ao homem e aquelas que causam grandes prejuízos como a febre aftosa.

A interação e a preservação do meio ambiente também foram incluídas de forma prática, mostrando entre outras coisas, como deve ser o descarte de embalagens de defensivos agrícolas, enfim, medidas que para evitar contaminação das pessoas e do solo. Nas últimas edições há um capítulo destinado ao Queijo Minas Artesanal, importante fonte de renda para famílias em diversas regiões. 

O sucesso do livro foi tão expressivo que o número de exemplares distribuídos e trabalhados em salas de aula chegou a 105 mil em todas as regiões do estado. E, após uma década, o projeto é implantado em um centro socioeducativo, que tem forte relação com o mundo rural, em razão da região e dos internos que lá se encontram.

“A gente não imaginava que pudesse gerar resultados tão positivos para as crianças e a sociedade. Fiquei emocionada quando soube da iniciativa de levar o projeto ao Centro Socioeducativo Governador Valadares. De repente o livro pode abrir caminho para sonhos”, conclui a veterinária. 

O projeto Sanitaristas Mirins conta com a parceria da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário (Seda), que tem patrocinado a impressão de exemplares do livro que dá suporte ao projeto. Só neste ano já foram 4 mil novos livros impressos.

“Ficamos muito felizes em caminharmos juntos com o IMA para promover a educação sanitária no estado, sobretudo quando o foco são as novas gerações”, avalia o titular da Seda, Professor Neivaldo.

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