Vida de funcionário Púbrico com “Nersinho Prosa”

coluna nersinho

 

Era uns desses cadastro que o governo faz e que dá prazo de uma semana pra toda a população cadastrá os fio nas escola. Nem o coitado do funcionário consegue entendê o porquê o sistema tem que ser assim tão cruer. Será que eis num vê o colosso de gente que tem para se atualizá? E as pergunta que fazem: “Tipo sanguíneo”… Pelamordedeus, nem eu sei o meu tipo sanguíneo, a coitada da cumádi lá da roça vai sabê? Vai vendo… Era o úrtimo dia do tar cadastro e parece que todo mundo deixô para a úrtima hora. Apareceu uma senhorinha humirde, simprória de tudo, querendo cadastrá seus trêis netin. O primeiro, cadastrado com sucesso, o segundo, cadastrado com sucesso (falei cadastrado e não castrado) mas chegou no terceiro… Parece que era a cruz da vida daquele funcionário.

– Qual é o nome do terceiro, minha senhora? – perguntou o funcionário. – É Tonin, meu fio… – Ah, então o nome dele é Antônio. Isso mesmo? – Não, é Tonin. – Então, minha senhora, todo Toninho se chama Antônio. – Ah, meu fio, disso eu num sei não. Eu só vim fazê o cadrasto dele. – disse a senhorinha. – Então a senhora pode me emprestar a certidão de nascimento dele? – Eu num sei dondé que tá não. Nem sei se ele tem certidão… – Claro que deve ter, já estudou até o terceiro ano, então deve ter sim. Mas fale pelo menos o sobrenome, por favor. – De quem, o meu ou o dele? – O dele, minha senhora. – Ah, moço, eu num sei não… é a mãe dele que sabe e ela tá trabalhando lá na roça hoje. – Nossa, assim fica meio difícil… – fala o funcionário coçando a parte de trás da orelha. Então, ele tem uma ideia: – Fale para mim, qual escola que ele estudou? – Ah, isso eu sei! Ele estudou na escola do bairro que eu moro mesmo.

Bem, pelo menos era uma luz, pois ele já tinha cadastrado os dois neto anteriô, e achá a escola ia ser fácir.

– Então, minha senhora o seu neto se chama Antônio e vai para o quarto ano do ensino fundamental, certo? – Acho que é, meu fio…

O funcionário procura um tar de Antônio e por incrível que pareça, nem na série anteriô e nem na atual havia este bendito Antônio. O próximo cabra da fila, impaciente grita pro funcionário:

– Vai demorar? Eu estou com uma baita pressa!

O funcionário, muito educado, fala que só vai resorvê o pobrema daquela senhora e já o atende. Mas o tempo vai passando e nada de achar o tal Antônio.

– Minha senhora, tem certeza de que ele se chama Antônio? – Não, meu fio, eu falei procê qui num sei o nome certo dele não… – Então ele não se chama Antônio? – Eu chamo ele de Tonin. Mas os pais dele colocaro outro nome nele, mas eu queria que ele se chamasse Tonin. Então eu chamo ele ansim desde o nascimento e todo mundo chama também…

O funcionário coloca a mão no rosto e a desliza para baixo, como quem diz: “voltamos à estaca zero”. Nisso o mesmo rapaz da fila grita:

– Hei, tenho mais o que fazer. Faz mais de meia hora que estou aqui na fila. Todo funcionário público é uma droga mesmo!

Já vermeio pelo stresse do finar do dia e ansioso, pois a fila corta o quarteirão e com pena daquela senhora, o funcionário pega a ficha de matrícula de aluno por aluno e fala o nome em voz alta para ver se pelo menos aquela senhora se lembra. E em cada nome falado, a resposta: “não”, ou “não tenho certeza”. Nisso o rapaz da fila começa a agitar todos os demais a fim de provocar ali uma revolução. Todos passam a xingar o funcionário de várias formas e ele vai ficando cada vez mais acuado. O que fazer? Desistir dessa senhora? E a criança, como ficará depois? Aparece ali duas moças das “barraqueira” e fala em voz bem arta para o funcionário:

– Eu pago o seu salário!

Entre xingamentos e pressão, o funcionário começa a remexer os paper, na esperança de um milagre acontecer… Se a mãe dele aparece ali e diz: “tadin do meu fio”, com certeza ele desaba a chorá e vai correndo pro colo dela. Se alguém mostrá quarqué reação de dó, ele chora ali memo. De repente, como que pela mão de Deus, aparece a professora que dá aula naquela escola:

– Ô dona Maria, como vai a senhora? – Pergunta a professora. – Vô bem, fessora… – Como vão os seus três netinhos, o Alfredo, o Marcinho e o Guilherme?

Opa!!!! Peraí!!! Ele já cadastrou o Alfredo e o Marcinho, mas não cadastrou o Guilherme. E fala para a professora:

– A senhora é professora dos netinhos dela? – Já dei aula para os dois mais velhos, agora é o Guilherme quem vai entrar na minha sala. – disse a abençoada professora.

Enquanto isso, o povo da fila está em altas vozes e com tons de ameaça… – E qual é o nome completo dele, professora? – disse o funcionário. – É Guilherme da Silva Hermelindo.

O funcionário novamente procura no meio das fichas de matrícula e encontra o mardit… ops! O bendito Guilherme. Pronto! Em cinco minutos o cadastro estava pronto e aquela senhora saiu satisfeita da vida. Mas já com os nervo à flor da pele, estressado, com vontade de ir embora, cansado e com um monte de gente para atendê, entra o próximo da fila, sim, aquele desgraçado que xingava e não tinha pacência. Com a maior cara pelada ele fala:

– Nossa, não sei como vocês conseguem, se fosse eu já tinha largado tudo.

Apesar de o palavrão correr pela boca do funcionário querendo mandar o homem para todos os lugares do universo (menos o céu), ele engole o choro, o palavrão e a crítica, dá um leve sorriso e diz:

– Posso ajudá-lo, senhor?

Quem acha qui é fácir, a vida de funcionário púbrico é difícir! Só pra clariá as ideia:

Código Penal BrasileiroDecreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940 – Art. 331 – Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela: Pena – detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.Oferecimento_abdala

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